sexta-feira, 13 de março de 2009

olhar de promessas fáceis

Hoje quero muito ficar só. Ou apenas ficar muito só. Talvez hoje só queira ficar. Ficar não sei bem onde, nem com quem ou 'sem quem'. Sei que quero sentar-me num chão duro e ver à minha frente a linha do horizonte.Esquecer os olhares de promessas fáceis que iludem e desiludem com uma pressa enigmática; as palavras baratas que enchem o ar poluído de mais poluição ainda; os gestos mentirosos que se envolvem em ciclos muito mais do que viciosos.
Abstraída, vou envolver-me nessa realidade falsa e aproveitar desequilibradamente os escassos segundos da sua duração - um, dois ... nem tanto.
E assim, ciclicamente.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

texto autobiográfico - uma memória.

Sob mil sóis escaldantes vivia inundada de alegria e inocência um amor adulto, muito mais do que qualquer outro. Mais do que amor, era um fascínio apaixonante que nunca ousei partilhar.
Via-o como ninguém e sentia que todos os centímetros da sua imensidão me pertenciam fielmente. Conhecia de cor o seu cheiro fresco e suave, o seu toque frio mas carinhoso.
Foram muitas as vezes em que me sentava em areia humedecida e olhava com vontade de ver mais, de alcançá-lo e possuí-lo de forma egoísta.
E depois, mais tarde e já quase sozinha, sentia a brisa leve levantar-me os cabelos e imaginava que eram as suas mãos a acariciar-me com um amor de certa forma retribuído. Haviam dias em que, pensava eu, era melhor não me aproximar pois a sua fúria era irreversível - nunca me lembrei, porém, que poderia tentar acalmá-lo
Ninguém se atrevera a entender o meu secreto fascínio, mas pelo menos não o julgavam - talvez porque a minha figura pequenina de criança lhes transmitia uma alma sensível.
Amava aquele mar imenso e ainda não tinha a capacidade de o condenar por nao ser, nem tão pouco, a única. Continuei a venerá-lo e a querer senti-lo meu.
Contudo, a magia tem sempre um fim, e sem avisos prévios ele foi, para não mais querer voltar a ser o mesmo, nem sequer meu.
Hoje, é significado de tranquilidade, paz, harmonia, reflexão e muito mais. Mas o fascínio perdeu-se entre a areia e as rochas, entre os contratempos do próprio tempo. Como tudo.

Filipa Silva.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

mil vezes mais

Sob mil sóis escaldantes, brisas suaves e ventanias irreversíveis, debaixo do preto da noite, da magia da lua e em frente ao mar sedutor.
Em mil ares diferentes, odores opostos e toques contrastantes, em mil sonhos calados, falados, cantados; em mil páginas escritas, rasgadas, queimadas, riscadas.
Em mil céus diferentes: nuvens em forma de coração, de monstro, de rio e flor. Por mil caminhos diferentes, estradas velhas, novas, paralelos e até areia e terra, mil destinos sonhados , mil horizontes programados, mil objectivos traçados, e mil sonhos por construir/destruir.
Sob mil chuvas torrenciais e flocos de neve, debaixo de mil estrelas diferentes e com mil cores marcantes faço o desenho de uma história, que não cabe em mil e uma telas.
Vivo, sob e sobre mil sensações diferentes e amo de mil maneiras minhas. E vivo. Em mil dias aprendo a viver, noutros a sobreviver. Mas vivo com mil vontades de ser mais.
E amo, amo muito mais do mil vezes.
Filipa Silva

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

2008. 2008 foi mais um ano, diferente e igual aos muitos outros. Com cores e sorrisos, a preto e branco e com lágrimas.
Fechei gavetas e abri baús, escondi gigantes e constantemente cruzei-me com minúsculos soldadinhos do coração.
Compliquei o mais simples e tentei simplificar as maiores complexidades da vida. Li, revi-me naquilo que li. Escrevi e tornei-me personagem da minha própria vida feita em papel. Acrescentei personagens,mas o mais importante foram as que já pertenciam à história:a umas, dei valor, a outras nem tanto. Umas com mais impacto,presença ,outras que apesar de uma significativa distância, permaneceram importantes e não menos especiais.
Sei que tive e terei sempre uma dificuldade estranha em permitir que outras bonecas de pano ou outros guerreiros de chumbo saltem para dentro do meu livro. Não, não é egoísmo, é protecção.
Sendo eu princesa e por vezes apenas figurante, aceitei os papeis e fui aquilo que tive que ser ,fui eu.
Muito mais do que uma personagem cheia de hipérboles ou até eufemismos, não quis metáforas nem muito menos comparações, fui eu, conforme pude, fui mais eu do que qualquer princesa de contos de fadas.
Contudo, o mais interessante neste livro de papel reaproveitado e escrito com marcadores de criança, é que não se trata de um conto de fadas de verdade, até porque não há princesas de verdade, nem fadas, muito menos anões - há a vontade de ser, a capacidade de sonhar e a força de assumir que somos capazes de tudo, basta um sorriso ou outro na plateia.
Não podia deixar esta última fase do meu conto pouco correcto, sem passar a negrito a presença de um príncipe, que foi príncipe sempre que o quis ser, mas acabou por abandonar esse papel mais vezes do que as que eu queria e sonhei. É, a verdade é que muitas das páginas deste ano foram escritas em torno dele , mas houve também muitos papéis borratados por gotinhas transparentes salgadas que saltaram dos meus olhos e fizeram o marcador azul desfazer as palavras. Mas foi ele, que esteve mais presente do que ninguém, embora esta presença seja relativa pois senti que estava sozinha mesmo com ele do meu lado. Amei - o com toda a força do Mundo, e disso , orgulho - me.
Foi assim um ano, mais um. Igual e diferente, original e por vezes vulgar. Amo muito as recordações que enchem o meu baú com a data de 2008, como com a de todos os anos anteriores. Quero,de forma simplista e minha, dizer um obrigada ás personagens que tornaram em arte o meu ano. Mais ainda, aos que tornam a minha vida num livro enorme cheio de cor e expressão.
E arte, arte não no sentido técnico, mas metaforizado - acho eu. Arte porque pessoas que me fazem sorrir, até chorar e me permitem ser eu mesma, são arte em mim, no meu corpo mas relevantemente, no meu coração. Aos gigantes que derrotei e aos minúsculos soldadinhos do coração, obrigada por existirem dentro de mim - obrigada por existirem só para mim.
Para 2009, espero do fundo do baú recuperar a capacidade de sonhar e de acreditar.
Filipa Silva - 30 de Dezembro de 2008

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

sobre os hi5's

Não sou muito do género de fazer slides ou criar pseudo-tops a tornar pessoas que mal conheço em meus amigos de longa data. Nem tão pouco utilizo isto como meio de popularização quanto mais de 'putização'.
É irónico passar em certos hi5's e deparar-me com a falta de nível que por lá vai. Sei lá, é aquilo que todos sabem porque faz já parte das rotinas.
Acho que nunca antes fora necessário uma página na internet para alguém se assumir perante uma sociedade ( que não mais existe porque afinal, é virtual), hoje - e já há algum tempo - é a forma mais óbvia e claro, mais fácil.
Não venho para aqui para ser uma excepção nem para me considerar diferente e automaticamente melhor, até porque se também tenho hi5 está claro que senti mais do que curiosidade - uma vontade de entrar neste Mundo. Mas a questão está aí mesmo, estamos em tantos mundos ao mesmo tempo que ainda não parámos para recriar o nosso, com a verdade que merecemos e até dignidade que escassa conforme passam os segundos. Isto é, o mundo do photoshop, do hi5, do fotolog. Um mundo que depois dos anteriores se cria em torno de alguém que afinal, NÃO EXISTE. É tudo uma questão de milhares de máscaras por detrás de vidas, e a isso eu chamo de futilidade.
Não querendo pôr tudo no mesmo saco, este cabe na consciência de alguns .

domingo, 12 de outubro de 2008

algures em Setembro.

Cinco cores. Cinco vidas. Cinco histórias e nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão.
Dois dias, dois momentos. Duas horas. Duas lágrimas e nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão.
Uma pessoa, mais uma pessoa.
Um amor. Uma conveniência. Uma lágrima, uma indiferença e no entanto, nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão. Nenhuma justiça, nenhuma compensação, nenhum sorriso.
Nenhuma verdade, nenhuma transparência. Nenhuma justiça. Nenhuma justiça. Nenhuma justiça.
Nada, nada, nada. Amor cego, amor-ilusão, amor-mentira.
Amor aqui, falsidade lá.
Adeus hoje, olá amanhã.
Coragem, ou falta dela. Amor e falta de compreensão.
Tudo num lado, nada do outro. E nenhuma justiça, nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão.
Nada, nada e nada.
Nada, nada e nada. Nunca nada, nunca nada de nada.

2008.10.03 , 22h33

Queria ser uma memória, uma recordação. Qualquer coisa semelhante aos mais diversos objectos, papéis, fotografias ( entre outros ) que guardo no meio daquele caderno de criança. Que me olhassem com carinho e chorassem com saudades- era isso, o que eu queria. Que gostassem de mim com dedicação, que precisassem do meu amor como eu preciso do deles.
Queria ser personagem principal nos contos imaginários e viver feliz para sempre no coração de alguém; da mesma forma que vivem felizes para sempre no meu coração.
Mas há um livro , escrito ao calhas, sem aspectos gramaticais nem tão pouco filosóficos interessantes do qual eu queria mesmo fazer parte. Até sabendo que se trata de algo pouco correcto, pouco sábio, mas eu queria. Queria muito e aceitava um papel qualquer. Desde rainha a criada ou até figurante sem nome nem falas. Queria estar lá, apenas pelo simples e quase concreto facto de estar. Significaria uma presença , com o seu pouco relevo - é certo- mas estava.
O livro, o livro é a vida de quem me levou a vida. E chamo livro ás vidas, porque é assim mesmo: muitos capítulos, imensos pontos finais e uma quantidade insuportável de personagens.
E este livro - ou vida - pertence ao sonho, amor, ilusão, desilusão, carinho, tristeza da minha história, do meu livro.