sábado, 2 de fevereiro de 2013
voaste.
sábado, 22 de dezembro de 2012
doces tropeções.
Tropeço em sorrisos e em satisfações perturbantes, tropeço em contentamentos vagos, em insanidades inquestionáveis.
Tropeço em ti, que tropeças em mim, e vamos tropeçando por aí, no tempo. No tempo que nem existe, que pertence ao mundo ou ao céu.
Tropeções com sorrisos anexados, tropeções semelhantes a chocolate quente num dia frio e chuvoso. Tropeções que embalam, que nos embalam na alma um do outro. E ficamos aí e aqui. Pelo céu, embalados neste sorriso, a tropeçar em amor.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Um nada silencioso.
Não que sejas meu, porque não és. Mas és o meu silêncio, a minha calma e o meu transtorno. Pelo menos hoje és, porque amanhã já não sei, amanhã talvez já não existas, amanhã talvez já não faça sentido.
Não que hoje faça sentido, porque não faz. Não fazes, aliás. Não sei quem te pôs na minha vida, nem sei se o permiti. Não sei como te arrancar daqui, nem sei se quero.
Mas és o meu silêncio.
Não sei quanto tempo tens, não sei quanto tempo eu tenho. Mas nós não somos tempo, não somos horas, não somos segundos nem eternidades. Somos insanidade, momentos, incertezas, tranquilidade.
Somos carinho e somos nada. Um nada que não dói nem inquieta, um nada repleto de magia, de brilho, de luz. Um nada que não dura, que irreversivelmente finda com o pôr do sol.
Um nada que ri, um nada que voa, um nada que de nada tem tudo.
sábado, 1 de dezembro de 2012
abraços e whisky
Conversa comigo, fala-me disso e daquilo. Diz essas coisas que nunca fazem sentido mas que soam estupidamente bem. Ouve-me, foca-te nas minhas palavras e vê a minha alma a sair delas.
Põe música. Uma qualquer: das tuas ou das minhas, das nossas ou das que nunca serão nossas. Baixa o som, continua a ouvir-me dizer barbaridades, assim mesmo, com esse sorriso perdido e concentrado em todos os poros da minha face.
Acende esse cigarro e ri-te. Ri com verdade, diz que é por isto e por tudo que gostas de mim.
Despenteia-me, goza comigo, luta comigo.
Enche-me o copo, ou passa-me a garrafa.
À minha frente a lareira, que queima todas as partículas de madeira, que faz aquele som romântico, que não pára nem apaga. O mar lá ao fundo, vê-se da janela mas eu sinto-o cá dentro. O céu, escuro mas bonito, cheio de estrelas, iluminado por aquela lua enorme, perfeita, carregada de sonhos e açúcar. Olha: uma estrela cadente! Envio mais um desejo para o céu, mas desta vez peço só paz de espírito e conforto no coração.
Continuas aí, a devorar cigarros fervorosamente, com esse sorriso parvo que não finda. Não vais embora, nem eu quero. Expulso-te da minha vida todos os dias, mas todos os dias imploro aos céus para que fiques, para que rias, para que me faças rir assim, desta forma. Tens ficado, mas o mundo não pára.
O mundo passa, o relógio tem pressa e a vida gira, gira, gira.
Percebo, finalmente, que já não é relevante pensar no amanhã. Só hoje.
Deixo o copo cair... Abraços.
(...)
Gargalhadas. E é por isto que me perco no tempo, porque sabemos rir, porque aparentemente não existe mais nada lá fora.
Trazes todos os marshmallows do mundo guardados no olhar, e ou muito me engano ou o teu coração é feito de açúcar.
Peço que nunca prometas, porque eu sei que ninguém cumpre. Peço que não me digas que vais ficar cá, comigo e para sempre. Que não digas que sou tua e que tu és meu. Peço que entendas que nunca vais cumprir, ninguém cumpre, ninguém sabe como se cumpre. Olhas-me de forma de forma tão séria quanto estranha e dizes que não tens medo de prometer, porque não consegues não cumprir.
Abraços. (...)
Sabes como me levar, sabes o que dizer, sabes bem. Mas não sabes que eu ainda não sei, nem vou saber amar. Fica segredo.
Trazes a última garrafa, os últimos cigarros, as últimas palavras de hoje.
Delicadamente envolves-me nesse sorriso cheio de estrelas cadentes, nesse estranho brilho que transportas no olhar e nesses braços que parecem enormes, que aparentemente conseguem dar duas voltas ao meu corpo.
Rimos mais, rimos sem fim. E, subitamente, tenho o coração confortável, aconchegadinho, quentinho, abraçadinho.
Abraços.
(...) filipa silva.
domingo, 12 de agosto de 2012
nada e tudo
Deixo tudo, com medo que o tudo se antecipe e me deixe perdida, rendida, deitada num chão sujo cheio de nadas que outrora foram muito para alguém.
E de repente o amor não existe. Acaba-se tudo, até as cores findam. Perco o sentido e já não tenho um porto de abrigo, uma mão, quanto mais um abraço apertado e sentido. Não há nada, e o nada é vazio, escuro, escasso de luz, de pureza.
As pessoas mentem, não passam de clones mecanizados para magoar, destruir. Funcionam «roboticamente», e esquecem o que é sentir, o que é rir e o quão bom seria amar se houvesse verdade.
A felicidade mora longe, num mundo que agora me parece idílico, naquela utopia que nunca passará disso, por ter sido construída para não ser real.
O mundo está gasto, em ruinas, podre. O céu está repleto de nuvens avarentas, carregadas de uma dor insuportável. Somos todos nuvens. Irreversivelmente.
Amanhã talvez sejamos sol, talvez sejamos o tudo de alguém. Mas também podemos ser o nada, o nada cheio de muito que ninguém vê.
sábado, 19 de novembro de 2011

Está frio. O céu está escuro e as nuvens pesadas, carregadas, quase tanto como eu.
Não importa, sento-me na areia molhada e descalço os ténis, atiro as meias para longe e deixo o mar molhar-me os pés. Está fria, fria como nunca.
Não sinto nada já, apenas um aperto inexplicável tanto quanto inevitável no coração.
Ouvem-se os trovões e, de quando em vez, aparecem uns clarões no céu capazes de iluminar até os becos mais escuros da cidade.
Deixei-me ali. Continuo aqui a desenhar letras em forma de rabisco. As lágrimas acabarão por transformar toda esta tinta da esferográfica preta num enorme borrão negro, imperceptível, mas continuarei.
(...)javascript:void(0)

Ás vezes perco-me e viajo, viajo para longe. Fico num mundo irreal como se nada mais houvesse à volta da terra.
Embarco nestas viagens alucinantes para ignorar, durante momentos, esta montanha russa de sentimentos que me invade como se já me pertencesse, irreversivelmente.
Trata-se de uma busca incessante de paz de espírito, uma procura interminável, um descontentamento constante que grita pelo silêncio como se se tratasse de algo inatingível.
Envolvo-me no percurso imaginário que me conduz a um lugar distante, tão distante como impossível pelo que desaparece segundos após surgir.
Perco-me por entre fragmentos do sonho, vivo-os como se fossem meus. Mas não são, nunca foram. Escapam-se-me pelos dedos como se fugissem aterrorizados.
Tal como tu, que tropeças em abraços recheados de açúcar. Um dia estás cá, no outro já foste para qualquer lugar distante, noutro planeta talvez.
Quando ficas cá, as tuas palavras surgem como que rebuçados embrulhados num papel colorido. Envolves-me num abraço apertado com sabor a morangos mergulhados em chocolate quente. Adoças-me a alma, que é para isso que ela existe, para ser estimada.
Não me pedes nada, eu não te peço nada. Ficamos ali, enrolados numa manta de mel a beber amor, numa chávena engraçada em formato de coração.
De repente lembrei-me de que já não estava a escrever sobre perder-me no meu pensamento mas sim sobre ti. Não apaguei, não editei. Fiquei simplesmente feliz por saber que, parecendo que não, és real.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
ontem e hoje.
Pedi-te um bocadinho do mundo e soube aceitar quando percebi que mesmo esse pedaço era demais.
Tentei não esperar nada de ti, tentei não desejar mais nada. Tentei viver assim mas aprendi simplesmente a sobreviver.
Os mais minúsculos gestos de carinho tornavam-se assim mais valiosos do que cristais, ou diamantes, ou ouro(...) Mas não eram suficientes.
Sei agora que vivi uma felicidade falsa, uma ilusão quase bonita mas demasiado frágil.
Construía uma história com pilares de areia na esperança que esses se tornassem de ferro. Caiu. E eu caí também. Caí várias vezes até.
Desesperei, desisti.
Agora apareces-me tu, disposto a dar-me o céu e o mundo.
Vestes-te de arrependimento e de sentimentos que não usavas quando eu precisei.
Estás aqui com um olhar diferente - reconheço isso - mas hoje nem o céu, nem o sol, nem a lua são suficientes para preencher o espaço vazio e magoado que deixaste cá dentro. Disparaste contra o meu órgão vital, de forma mortal.
Não morri, porque sou demasiado forte para me deixar vencer. Mas fiquei imóvel e perdida, mergulhada num mar salgado que parecia não mais ter fim.
Encontrei-me finalmente, e tu agora procuras-me com a noção de que sou um bem perdido.
Eu não sei se estou perto, se estou longe. Não sei se estou aí ou aqui.
Não sei se estou lá ou se vou sempre ficar por cá.
Sei que hoje preciso de muito mais do que o mundo, do que a lua, do que do universo.
Hoje preciso de mais, muito mais e mesmo isso será sempre pouco.
Mataste a parte de mim que ansiava por um abraço para se tornar a mulher mais feliz do mundo.
Hoje vivo eu, gelada pela realidade, e este gelo eu acho que não podes quebrar.
cocktail explosivo de palavras sem nexo ou ligação.
Posso desde já adivinhar que no fim do texto estarei vazia, ou leve(...) uma conjugação estranha entre leveza e vazio, uma provável sensação de paz ou uma possível ausência de sentimentos.
Há cartas espalhadas pela chão, umas bonitas, outras que não passam de um conjunto de letras mal desenhadas que carecem de emoções. Cartas de despedida que nunca me farão sorrir; cartas de amor aparentemente tão sinceras mas que, olhando bem, estão já desfeitas em pedaços de papel mal recortados.
Será mesmo assim a lei da vida?! Tu vais e vens, nunca ficas de facto nem nunca desapareces para sempre. Já não sei quem és tu, homem das mil facetas.
Tivemos tudo, dei-te mais ainda. Não falhei, não virei as costas. Não baixei os braços.
Recebi pouco, mas fiquei.
Morri por dentro .
Renasci.
Fecho os olhos.
Olho para o passado.
Não vejo nada.
Olho em frente.
Há sorrisos.
Há felicidade.
E estás tu.
E estou eu.
E está o mundo.
Hoje sei pouco, mas sei muito mais do que ontem. Saberei muito mais amanhã, espero.
Continuo sem fugir, mas agora compreendo melhor o verbo desistir. E desistir já não me parece um acto de fraqueza, mas sim de coragem. Desistir nem sempre é o caminho mais fácil. Desistir continua a ser-me difícil, loucamente difícil. Ainda não o sei fazer, e não sei bem se pretendo aprender.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Foco o olhar no na janela, e a chuva bate sem qualquer tipo de agressividade contra o vidro. Lá vou eu, não sei bem de onde, muito menos para onde. Mas vou, de auscultadores nos ouvidos e a mochila cheia de sonhos ao colo.
Os carros lá fora são lentos, os condutores são todos monotonamente iguais: vultos pretos sem sorriso, sem sinal algum de brilho no olhar ou em parte alguma. Hoje nem o céu brilha, não há sol, e ninguém diria sequer que ainda há dias foi Natal – visto que esta é uma época cheia de luzinhas de diversas cores, de chocolate quente com a família, de gargalhadas das crianças e do habitual oh oh oh do Pai Natal.
E agora, a música que levo nos ouvidos não me deixa focar em nada mais. Está aos berros, é ensurdecedora e chega a ser sarcástica. A única vontade que me envolve é a de fechar os olhos e deixar-me apagar por breves momentos neste tsunami emocional.
Perco-me dentro de mim mesma, nesta profunda imensidão de confusões e incertezas repentinas e quando volto, não há nada de novo. Está tudo igual, um dia tristemente cinzento, a chuva pouco agressiva que se assemelha a um choro já gasto. E eu, continuo aqui, com a música sempre bonita a matar-me o riso.
Quero voltar atrás no tempo, ou avançar… Só não quero ficar aqui.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
- só porque me lembro deste texto vezes sem conta.
Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.
terça-feira, 14 de julho de 2009
era uma vez.
A melodia do mar deixava vir à tona memórias doces - quase tão doces como uma combinação abusiva de chocolates, álcool e prazer. Afinal, tudo girava em torno da mulher da sua vida: o cocktail perfeito com as doses correctas, o sabor ideal, a beleza mais incrível, a alma mais bonita.
As ondas do mar, sarcásticas como nunca, assistiam aquele episódio aparentemente tirado de uma cena errada de um filme pouco profissional.
O mundo não parecia passar ali, nem o mundo, nem o tempo. Nem o sangue lhe escorria pelas veias.
A face bem desenhada do rapaz era agora nada mais do que um vulto absolutamente negro, absolutamente triste, absolutamente perdido. Desejava mais do que qualquer uma futilidade habitualmente desejada, ser a resolução para o problema do seu amor, da princesa dos seus castelos, da rainha dos seus sonhos, da sereia dos seus imensos mares.
Permanecia ali, desligado do relógio, desligado do seu corpo perfeitamente bonito. Só sabia dela, dos seus passos, até dos seus gestos ocasionais. Lembrava-a lindíssima, inalcançável, perfeita. Surgiam vagas memórias: era bonita quando acordava, quando adormecia. Era bonita todos os dias. Era bonita quando ria, era bonita quando chorava de riso. Era bonita quando gritava, até triste era bonita. Era bonita de vestido, mas simplesmente linda com uma t-shirt dele, enorme, com o cabelo despenteado, descalça a vaguear pela casa impondo a sua beleza em todos os cantos, em todos os pormenores pouco relevantes tornando-os extremamente especiais.
Fumava mais um cigarro, já quase sem força para elevar a mão à boca. Podiam-lhe arrancar o Mundo, mas tirarem-lhe a terna imagem de a ver adormecer no seu peito depois de uma noite de amor era matá-lo. E morria, de facto. Estava a morrer lenta e dolorosamente.
Faltava-lhe a essência perfumada da sua pele macia, a simplicidade mágica do seu sorriso mais branco do que a neve.
Faltava-lhe o olhar terno, a palavra amiga, o jeito acriançado. O cabelo no ar de todas as manhãs, os dias passados na cama a comer pipocas e a ver desenhos animados.
Faltava-lhe o fragmento mais feliz de si e agora, a areia gelava-lhe a figura, como que para completar a alma já desfeita em cacos gelados.
E depois, quando já não havia mais lágrimas para chorar nem cigarros para consumir furiosamente, sentou-se sem se importar minimamente com a quantidade de areia na sua camisola e olhou fixamente o mar - tal como a sua deusa fazia, tantas e tantas vezes. Olhou e sentiu o coração apertar muito… Quando voltou a olhar para o horizonte, estavam imensas palavras soltas escritas na água calma. Palavras que os uniam, mesmo que não tivessem qualquer sentido quando juntas.
E ele, cerrou os punhos, pegou nas sapatilhas e pôs-se a caminho. Caminhou para a felicidade. Correu em direcção à correcção de todos os erros cometidos anteriormente.
Jurou a si mesmo, deixando o poderoso mar como testemunha que nunca, nunca se voltaria a sujeitar a tamanha dor. Nunca mais, nem por um segundo que fosse se voltaria a imaginar longe dela, longe da felicidade, longe da harmonia, longe do seu jeito mimado, dos seus gestos estranhos, simples e demasiado bonitos para interpretar.
Do outro lado da praia, estava ela. Senhora de si, descalça. Olhava o horizonte com uma intensidade inexplicável e sentia o mesmo aperto que ele.
Era amor. Ou apenas paixão. Fosse o que fosse, era bonito.
Filipa silva.
You Found Me (Acoustic Version) - The Fray
sexta-feira, 13 de março de 2009
olhar de promessas fáceis
Abstraída, vou envolver-me nessa realidade falsa e aproveitar desequilibradamente os escassos segundos da sua duração - um, dois ... nem tanto.
E assim, ciclicamente.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
texto autobiográfico - uma memória.
Via-o como ninguém e sentia que todos os centímetros da sua imensidão me pertenciam fielmente. Conhecia de cor o seu cheiro fresco e suave, o seu toque frio mas carinhoso.
Foram muitas as vezes em que me sentava em areia humedecida e olhava com vontade de ver mais, de alcançá-lo e possuí-lo de forma egoísta.
E depois, mais tarde e já quase sozinha, sentia a brisa leve levantar-me os cabelos e imaginava que eram as suas mãos a acariciar-me com um amor de certa forma retribuído. Haviam dias em que, pensava eu, era melhor não me aproximar pois a sua fúria era irreversível - nunca me lembrei, porém, que poderia tentar acalmá-lo
Ninguém se atrevera a entender o meu secreto fascínio, mas pelo menos não o julgavam - talvez porque a minha figura pequenina de criança lhes transmitia uma alma sensível.
Amava aquele mar imenso e ainda não tinha a capacidade de o condenar por nao ser, nem tão pouco, a única. Continuei a venerá-lo e a querer senti-lo meu.
Contudo, a magia tem sempre um fim, e sem avisos prévios ele foi, para não mais querer voltar a ser o mesmo, nem sequer meu.
Hoje, é significado de tranquilidade, paz, harmonia, reflexão e muito mais. Mas o fascínio perdeu-se entre a areia e as rochas, entre os contratempos do próprio tempo. Como tudo.
Filipa Silva.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
mil vezes mais
Em mil ares diferentes, odores opostos e toques contrastantes, em mil sonhos calados, falados, cantados; em mil páginas escritas, rasgadas, queimadas, riscadas.
Sob mil chuvas torrenciais e flocos de neve, debaixo de mil estrelas diferentes e com mil cores marcantes faço o desenho de uma história, que não cabe em mil e uma telas.
Vivo, sob e sobre mil sensações diferentes e amo de mil maneiras minhas. E vivo. Em mil dias aprendo a viver, noutros a sobreviver. Mas vivo com mil vontades de ser mais.
E amo, amo muito mais do mil vezes.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
2008. 2008 foi mais um ano, diferente e igual aos muitos outros. Com cores e sorrisos, a preto e branco e com lágrimas.
Fechei gavetas e abri baús, escondi gigantes e constantemente cruzei-me com minúsculos soldadinhos do coração.
Compliquei o mais simples e tentei simplificar as maiores complexidades da vida. Li, revi-me naquilo que li. Escrevi e tornei-me personagem da minha própria vida feita em papel. Acrescentei personagens,mas o mais importante foram as que já pertenciam à história:a umas, dei valor, a outras nem tanto. Umas com mais impacto,presença ,outras que apesar de uma significativa distância, permaneceram importantes e não menos especiais.
Sei que tive e terei sempre uma dificuldade estranha em permitir que outras bonecas de pano ou outros guerreiros de chumbo saltem para dentro do meu livro. Não, não é egoísmo, é protecção.
Sendo eu princesa e por vezes apenas figurante, aceitei os papeis e fui aquilo que tive que ser ,fui eu.
Muito mais do que uma personagem cheia de hipérboles ou até eufemismos, não quis metáforas nem muito menos comparações, fui eu, conforme pude, fui mais eu do que qualquer princesa de contos de fadas.
Contudo, o mais interessante neste livro de papel reaproveitado e escrito com marcadores de criança, é que não se trata de um conto de fadas de verdade, até porque não há princesas de verdade, nem fadas, muito menos anões - há a vontade de ser, a capacidade de sonhar e a força de assumir que somos capazes de tudo, basta um sorriso ou outro na plateia.
Não podia deixar esta última fase do meu conto pouco correcto, sem passar a negrito a presença de um príncipe, que foi príncipe sempre que o quis ser, mas acabou por abandonar esse papel mais vezes do que as que eu queria e sonhei. É, a verdade é que muitas das páginas deste ano foram escritas em torno dele , mas houve também muitos papéis borratados por gotinhas transparentes salgadas que saltaram dos meus olhos e fizeram o marcador azul desfazer as palavras. Mas foi ele, que esteve mais presente do que ninguém, embora esta presença seja relativa pois senti que estava sozinha mesmo com ele do meu lado. Amei - o com toda a força do Mundo, e disso , orgulho - me.
Foi assim um ano, mais um. Igual e diferente, original e por vezes vulgar. Amo muito as recordações que enchem o meu baú com a data de 2008, como com a de todos os anos anteriores. Quero,de forma simplista e minha, dizer um obrigada ás personagens que tornaram em arte o meu ano. Mais ainda, aos que tornam a minha vida num livro enorme cheio de cor e expressão.
E arte, arte não no sentido técnico, mas metaforizado - acho eu. Arte porque pessoas que me fazem sorrir, até chorar e me permitem ser eu mesma, são arte em mim, no meu corpo mas relevantemente, no meu coração. Aos gigantes que derrotei e aos minúsculos soldadinhos do coração, obrigada por existirem dentro de mim - obrigada por existirem só para mim.
Para 2009, espero do fundo do baú recuperar a capacidade de sonhar e de acreditar.
Filipa Silva - 30 de Dezembro de 2008
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
sobre os hi5's
É irónico passar em certos hi5's e deparar-me com a falta de nível que por lá vai. Sei lá, é aquilo que todos sabem porque faz já parte das rotinas.
Acho que nunca antes fora necessário uma página na internet para alguém se assumir perante uma sociedade ( que não mais existe porque afinal, é virtual), hoje - e já há algum tempo - é a forma mais óbvia e claro, mais fácil.
Não venho para aqui para ser uma excepção nem para me considerar diferente e automaticamente melhor, até porque se também tenho hi5 está claro que senti mais do que curiosidade - uma vontade de entrar neste Mundo. Mas a questão está aí mesmo, estamos em tantos mundos ao mesmo tempo que ainda não parámos para recriar o nosso, com a verdade que merecemos e até dignidade que escassa conforme passam os segundos. Isto é, o mundo do photoshop, do hi5, do fotolog. Um mundo que depois dos anteriores se cria em torno de alguém que afinal, NÃO EXISTE. É tudo uma questão de milhares de máscaras por detrás de vidas, e a isso eu chamo de futilidade.
Não querendo pôr tudo no mesmo saco, este cabe na consciência de alguns .
domingo, 12 de outubro de 2008
algures em Setembro.
Dois dias, dois momentos. Duas horas. Duas lágrimas e nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão.
Uma pessoa, mais uma pessoa.
Um amor. Uma conveniência. Uma lágrima, uma indiferença e no entanto, nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão. Nenhuma justiça, nenhuma compensação, nenhum sorriso.
Nenhuma verdade, nenhuma transparência. Nenhuma justiça. Nenhuma justiça. Nenhuma justiça.
Nada, nada, nada. Amor cego, amor-ilusão, amor-mentira.
Amor aqui, falsidade lá.
Adeus hoje, olá amanhã.
Coragem, ou falta dela. Amor e falta de compreensão.
Tudo num lado, nada do outro. E nenhuma justiça, nenhuma lógica. Nenhum sentido, nenhuma razão.
Nada, nada e nada.
Nada, nada e nada. Nunca nada, nunca nada de nada.
2008.10.03 , 22h33
Queria ser personagem principal nos contos imaginários e viver feliz para sempre no coração de alguém; da mesma forma que vivem felizes para sempre no meu coração.
Mas há um livro , escrito ao calhas, sem aspectos gramaticais nem tão pouco filosóficos interessantes do qual eu queria mesmo fazer parte. Até sabendo que se trata de algo pouco correcto, pouco sábio, mas eu queria. Queria muito e aceitava um papel qualquer. Desde rainha a criada ou até figurante sem nome nem falas. Queria estar lá, apenas pelo simples e quase concreto facto de estar. Significaria uma presença , com o seu pouco relevo - é certo- mas estava.
O livro, o livro é a vida de quem me levou a vida. E chamo livro ás vidas, porque é assim mesmo: muitos capítulos, imensos pontos finais e uma quantidade insuportável de personagens.
E este livro - ou vida - pertence ao sonho, amor, ilusão, desilusão, carinho, tristeza da minha história, do meu livro.
2008.10.03 , 22h15
Vidro-me numa história, na única que sei de cor e reparo que ela só significa algo para mim. Mais ninguém a vê, nem muito menos a sente como eu. Começo a pensar que se trata de uma história imaginada por mim em actos de desespero, mas não. Existe mesmo e pertence-me como se fosse um órgão vital: domina as minhas vontades e forças, destrói o que construí. Faz-me sorrir e chorar. Faz-me amar e odiar. Toma conta de mim com a injustiça habitual das histórias.
Não há príncipe nem princesa. Nem bruxa nem duendes, nem fadas. Há um lugar escuro que consiste em quatro paredes e pouco mais: um caderno e um marcador. Muitos riscos e palavras, muitas frases sem nexo e por trás de tudo, uma vida. Uma vida quase esquecida no meio do silêncio ruidoso, penoso, sofrido e pesado. Uma vida sem vida que deu a vida que tinha quando ainda era vida a um amor, que era a sua vida. Um amor enorme dum lado, um nada do outro. E no meio de tanta coisa vazia, há uma quantidade enorme de lágrimas que borratam o caderno e fazem dele uma tela de um pintor abstracto sem talento nem vontade.
Ao longe ouvem-se decerto suspiros tristes, mas é bom que ninguém os queira ouvir de perto - assustariam-se com a imensidão do escuro, do borratado das gotas salgadas, e assustariam-se ainda mais com aquele corpo já sem alma que só serve para desenhar palavras tortas que nunca ninguém vai entender. E digo que é só corpo porque já não restam vestígios da alma. O brilho do olhar já não é brilho, é apenas uma expressão triste; o sorriso é igualmente triste e cínico.
É um corpo que sobreviveu a uma luta - e que luta! - que lhe roubou a vida.
Ninguém entende a tal história porque ninguém sabe do tal corpo sem alma. Ninguém entende a tal história porque ninguém tem a plena noção de injustiça. Ninguém entende a tal história porque só se interessam com os contos de príncipes e princesas. Ninguém entende a minha história, porque ninguém sabe como ela é realmente. Mas é melhor não tentarem entender as quatro paredes escuras, porque nunca ninguém lá vai poder entrar.
É um mundo de alguém que não quer viver porque a sua história lhe roubou a vida, é um mundo que ninguém pode querer porque não o dou, nem empresto a ninguém.
Gostava de acrescentar o famoso " The end ", mas isso, não depende nem da história, nem do tal corpo.